Textos

A cafeteria espelha o mundo
Passei a tarde numa cafeteria.
Observava, lia poesia,
pedia um expresso — e outro,
e veio a vontade de escrever o que via...

Vi um casal que arrisco octogenários:
muito cuidado de um para o outro,
sorrisos trocados:
extraordinário!
Vi jovem pedindo café bonito.
tirava foto, apagava,
tornava a fotografar...
— e o café ali a esfriar.

Vi adultos jóvenes (argentinos),
julguei casal de longa data,
pediram cappuccino.
Não conversavam, nada de sorrisos,
de longe, tudo proforma:
que triste destino...

Vi italianos a gesticularem,
sorrir, tagarelarem,
como que enamorados,
mas é só a forma deles se expressarem.

Vi posteriormente uma senhora,
ornamentada de ouro, brincos, joias,
estava de tudo a reclamar,
o café sempre a adoçar,
o garçom sempre a gritar:
mal amada, será?

Entre uma olhadela e outra
eu lia Drummond,
no momento em que dizia que ninguém é igual,
pois somos todos um estranho ímpar.
Refleti, paguei a conta,
lembrei-me de outro excerto,
esse do baiano Caetano,
que dizia que de perto ninguém é normal.
Jonas Sales
Enviado por Jonas Sales em 25/11/2019


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